Marchas Infantis das Escolas de Lisboa

Marchas Infantis das Escolas de Lisboa

30 anos de memórias e histórias para contar

Durante três décadas, milhares de crianças das escolas de Lisboa vestiram-se a rigor, ensaiaram coreografias, decoraram letras e aprenderam que as Marchas Populares são muito mais do que um desfile. Em 2026, as Marchas Infantis das Escolas de Lisboa comemoram 30 anos de existência, afirmando-se como um dos projetos mais importantes de educação patrimonial da cidade. 

Organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa, desde 1996, as Marchas Infantis nasceram com o propósito de aproximar os mais novos das tradições populares lisboetas. O que começou como uma iniciativa educativa transformou-se num projeto que mobiliza escolas, professores, associações de pais, juntas de freguesia e famílias, em torno de uma herança cultural que atravessa gerações. 

Ao longo dos meses que antecedem as festas dos Santos Populares, as crianças mergulham no universo das marchas. Aprendem sobre a história da cidade, os seus bairros, as figuras típicas, as profissões tradicionais e os símbolos que fazem parte da identidade lisboeta. Mais do que preparar uma atuação, participam num processo de descoberta e valorização do património cultural da capital. 

O impacto do projeto reflete-se, desde logo, nos números. Só nas edições mais recentes participaram cerca de 1500 crianças, distribuídas por dezenas de grupos representativos das freguesias da cidade. Mas a verdadeira dimensão das Marchas Infantis mede-se pelas histórias e pelas memórias que nasceram deste projeto. Muitas das crianças que desfilaram nos primeiros anos são hoje adultos que continuam ligados às marchas dos seus bairros. Algumas tornaram-se marchantes, outras mantêm-se envolvidas na organização ou na investigação da história desta tradição, demonstrando a capacidade do projeto para criar laços duradouros com a cultura da cidade. 

Integradas no projeto educativo “Lisboa Cidade de Tradições”, as Marchas Infantis têm desempenhado um papel fundamental na preservação da memória coletiva de Lisboa. A celebração dos 30 anos fica marcada pelo lançamento do livro 30 anos das Marchas Infantis de Lisboa, uma obra que reúne testemunhos, memórias e imagens de quem ajudou a construir esta história ao longo de três décadas. 

Trinta anos depois, as Marchas Infantis continuam a cumprir a mesma missão: garantir que a alma das festas populares passa de geração e geração.

Para contar esta história, ouvimos alguns dos protagonistas que a viveram ou ainda vivem por perto, marchantes, ensaiadores e coordenadores que também dão voz às memórias reunidas no livro. 

Jorge Alves

Coordenador das Marchas Infantis

Jorge Alves, coordenador das Marchas Infantis desde o início dos anos 2000, tem acompanhado de perto esse percurso e fala de uma ligação marcada pelo orgulho e pelo sentido de responsabilidade. “É um sentimento especial estar ligado a um evento, a uma atividade desta importância, que foi crescendo e sendo cada vez mais importante para a cidade”, afirma. Apesar de dirigidas às crianças, as Marchas Infantis seguem os mesmos princípios das Marchas de Lisboa, com música, letra, figurinos, arcos e coreografias que exigem meses de preparação por parte das escolas, juntas de freguesia e associações de pais. O trabalho começa logo no início do ano e culmina num desfile final que junta atuações individuais e um momento coletivo, onde todas as marchas partilham o mesmo espaço e a mesma coreografia.

Mais do que uma celebração, Jorge Alves sublinha o impacto duradouro deste projeto nas crianças e nas famílias. “Participar nas Marchas Infantis é especial e deixa marcas”, diz, recordando o entusiasmo que cresce à medida que se aproxima o desfile e o envolvimento de todos os que tornam este momento possível. Entre as memórias que guarda com mais emoção, destaca o regresso das Marchas Infantis após um longo interregno, sobretudo o reencontro em Belém, que descreve como “um momento único”. Esse valor afetivo prolonga-se no tempo e atravessa gerações: “Muitos deles, passados 10 anos, já trouxeram os filhos para participar nas marchas infantis”, conta. Para o coordenador, é precisamente nessa continuidade, entre a experiência vivida em criança e a vontade de a transmitir aos filhos, que se revela a força desta tradição e o seu papel na preservação da identidade cultural de Lisboa. “Queremos ajudar a preservar esta tradição tão especial na cidade de Lisboa”, afirma.


Irene Gonçalves

Antiga professora e diretora da EB João dos Santos em Marvila e impulsionadora das Marchas Infantis das Escolas

Falar das Marchas Infantis é, para Irene Gonçalves, falar de escola, de comunidade e de uma ideia de pertença construída ao longo de décadas. Professora e antiga diretora, na EB João dos Santos, em Marvila, entrou na escola em setembro de 1977 e encontrou um território muito diferente daquele que hoje se conhece. Desde o primeiro momento que começou a criar uma relação mais próxima com os alunos, com as famílias e com o bairro, uma ligação que nunca mais se desfez. “Fui sempre a professora Irene”, recorda. Nesta proximidade com a comunidade, a escola era muito mais do que um lugar de aprendizagem: era também espaço de encontro e de partilha.

Foi dessa visão de escola aberta ao bairro que nasceu, há 30 anos, o impulso para criar um projeto que viria a marcar gerações. Enquanto coordenava um projeto de educação, Irene Gonçalves mobilizou apoios, juntou escolas da freguesia e lançou as bases das primeiras marchas infantis. “Consegui pôr essas marchas todas de pé”, lembrando o envolvimento de toda a comunidade. A experiência local chamou a atenção do então vereador da Educação e acabou por ser replicada à escala da cidade. Irene lembra, com emoção, a primeira grande apresentação no Parque Eduardo VII: “Foi das coisas mais lindas que possam imaginar”, numa celebração que unia tradição, infância e identidade lisboeta.

Ao recordar esse caminho, Irene Gonçalves insiste no valor contínuo das Marchas Infantis enquanto projeto de formação e de transmissão cultural. Mais do que o espetáculo final, destaca o que se constrói nos ensaios: “a união que há entre eles, o companheirismo, o bairrismo”. Para a professora, é precisamente aí que reside a força desta iniciativa, na capacidade de juntar crianças, famílias e escolas em torno de uma tradição comum: “Esta tradição tão bonita não se deve deixar morrer nunca”. 


Vasco Belguinha

Tem apenas 11 anos e este é o último ano como marchante das Marchas Infantis das Escolas de Lisboa. 

Vasco Belguinha vive as Marchas Infantis com a alegria de quem encontrou nelas muito mais do que uma atividade extracurricular. Entrou “a brincar com os amigos”, porque lhe pareceu divertido, mas depressa percebeu que havia ali mais do que uma brincadeira passageira.

Eu gostei muito”, conta. Enquanto alguns colegas acabaram por desistir, o Vasco permaneceu: “Eu continuei, e quero fazer isto a minha vida toda”, diz, numa frase simples que revela bem o entusiasmo e a ligação que criou com esta experiência.

Nos ensaios, destaca o convívio, os intervalos passados com os amigos e a relação de proximidade com as ensaiadoras, que, diz, “ajudam-nos muito”. É nesse ambiente, entre repetição, aprendizagem e partilha, que a coreografia vai ganhando forma e que se constrói também um sentimento de pertença.

A apresentação na Alameda é “gira”, mas é na Avenida que sente o verdadeiro brilho da experiência. “É mais giro o desfile na Avenida”, explica, sobretudo porque ali estão “muitas famílias a apoiar os filhos”. Marchar perante o público, sentir o apoio vindo das bancadas e saber que também pode aparecer na televisão, tornam esse momento ainda mais especial.

Quando recorda os dois anos em que participa nas Marchas Infantis, fala dos amigos, das ensaiadoras e dos figurinos, elementos que ajudam a compor uma vivência feliz e marcante.

E, se tivesse de deixar uma mensagem a outras crianças, a resposta surge sem hesitação: “Divertimo-nos muito, é tudo muito giro. Dá para brincar, dá para marchar, dá para cantar”.


Cláudia Potes

Cláudia Potes tinha apenas 3 anos quando entrou pela primeira vez nas Marchas Infantis, ainda como mascote, trazida pela mão da então diretora Irene Gonçalves. Três décadas depois, olha para essa memória como o início de um percurso afetivo: “É uma memória que eu tenho, que me parece muito recente”, confessa, referindo a coincidência simbólica entre os seus 30 anos e os 30 anos de um projeto que ajudou a moldar a sua relação com a tradição popular lisboeta. Depois da estreia como mascote, seguiram-se os anos como marchante na escola, vividos com um entusiasmo que ainda hoje recorda com nitidez. Desse tempo guarda o “espírito de grupo” e a felicidade partilhada entre crianças, ensaiadores e comunidade. “Nós éramos mesmo muito felizes nesta altura do ano”.

Esse vínculo, nascido na infância, prolongou-se naturalmente pela vida adulta. Cláudia nunca se afastou das marchas: primeiro acompanhando de perto a atividade da coletividade, depois como marchante da Marcha de Marvila, o bairro com o qual continua a identificar-se profundamente. “É um dos maiores orgulhos que eu tenho na minha vida”, afirma. Para Cláudia, as Marchas Infantis têm precisamente essa força: a de semear desde cedo um sentimento de pertença e de continuidade. “Se for semeado logo de pequenino, depois pode suscitar, mais tarde, o interesse para entrar nas marchas populares”, sublinha. O seu próprio percurso é exemplo disso mesmo. Hoje, licenciada e a frequentar um mestrado em História da Arte e Património, escolheu dedicar a investigação académica às Marchas Populares de Lisboa e à possibilidade de as musealizar, como forma de preservar e transmitir este património às novas gerações. 

No seu testemunho, cruza-se a memória pessoal com uma convicção mais ampla: a de que as Marchas Infantis não são apenas uma experiência marcante para quem nelas participa, mas são também uma das formas mais consistentes de garantir o futuro de uma tradição identitária da cidade.


Patrícia Saraiva

Coreógrafa e ensaiadora

Para Patrícia Saraiva, coreógrafa e ensaiadora, acompanhar o percurso das crianças ao longo dos ensaios é assistir, passo a passo, ao crescimento da confiança, da disciplina e do entusiasmo. “Acima de tudo é um orgulho ver a capacidade que os mais novos revelam para articular o marchar, a coreografia e a letra” um exercício exigente, que requer atenção ao ritmo, aos tempos e aos movimentos.

É um trabalho de paciência e de sensibilidade”, explica, sublinhando a importância de encontrar equilíbrio entre a exigência e o prazer, para que os ensaios continuem a ser, para as crianças, um espaço de alegria. Mais do que decorar passos, trata-se de ajudá-las a viver a experiência com sentido de grupo, motivação e gosto pelo que estão a construir em conjunto.

Neste ano especial, Patrícia Saraiva quis que a coreografia refletisse esse simbolismo e deixasse uma marca especial: “Tentei fazer uma coisa diferente, uma vez que são os 30 anos”, com a expectativa de que o desenho pensado para o desfile consiga honrar a história de um projeto que atravessa gerações. Os ensaios decorrem desde o início de abril e, segundo a ensaiadora, o empenho das crianças tem sido constante: “Eles vêm empenhados e motivados”. Nesse compromisso coletivo, entre quem ensina e quem aprende, entre o rigor e a brincadeira, reconhece-se uma das dimensões mais valiosas das Marchas Infantis: a capacidade de transformar o esforço partilhado num momento de celebração. 


Ricardo Reis

Coordenador do Cavalinho

Na construção da música e da letra para esta edição das Marchas Infantis, Ricardo Reis teve a preocupação de preservar a identidade popular lisboeta que está na origem deste projeto. O coordenador do cavalinho sublinha a importância de, no universo infantil, manter viva a matriz tradicional pois é importante “garantir que a melodia permanece próxima da sonoridade popular e que a letra conserve uma linguagem acessível e seja facilmente apropriada pelas crianças”. 

A ideia é que os mais novos reconheçam esta herança como algo seu, interiorizando desde cedo a musicalidade, os códigos e o espírito das marchas.

Ver crianças tão novas a cantar e a dançar ao som destas composições é, acima de tudo, uma forma de assegurar continuidade. “Estes são os marchantes do futuro”, afirma. Num contexto em que tantas vezes se fala da perda de tradições da cidade, as Marchas Infantis surgem como um espaço de transmissão entre gerações, onde se cultiva o gosto, o conhecimento e o sentimento de pertença. Ao assinalarem 30 anos, reforçam precisamente esse papel: o de preparar os lisboetas de amanhã para manter viva uma das mais emblemáticas tradições da cidade. E, por isso, o olhar lançado ao futuro é de confiança: “O futuro é muito risonho”.